Monthly Archives: março 2015

Escravidão nos tempos antigos

A escravidão nos tempo antigos era uma realidade comum, contudo era diferente da forma como a ocorrida no tempo das grandes navegações. A mais evidente diferença é que nos tempos antigos a escravidão poderia ocorrer de muitas maneiras e não ocorria com um grupo específico; ao passo que, no tempo das grandes navegações, o grupo alvo da escravatura eram os negros. O sentimento de ódio ou desprezo racial, nos tempos antigos, era inexistente, entretanto o sentimento de xenofobia era uma realidade comum; ou seja: a cor da sua pele não era importante, mas sua origem sim.

A escravidão era mais comum entre a população capturada após uma batalha, porém existiam os escravos por dívida. Diferentemente do que ocorria nas senzalas, a procriação entre escravos não era uma realidade comum. Não havia interesse financeiro algum que os escravos tivessem prole, vez que isso tiraria uma escrava adulta de serviço, bem como havia a possibilidade de morte no momento do parto e, além de tudo, os gastos decorrentes da alimentação da criança até que entrasse em idade adequada para trabalho. Logo, era muito mais vantajoso comprar escravos do que pô-los para procriar (Roma adotou métodos para procriação massiva de escravos após o final das grandes guerras, contudo apenas por não ter outras opções economicamente mais viáveis – leia-se: um fornecimento regular de adultos oriundos da captura de populações militarmente dominadas).

ancient-greece-10-728

Destino comum para guerreiros e homens fortes em geral capturados em batalha era o de trabalhar em minas de prata. Esse local extremamente insalubre lhes roubava força e energia, impossibilitando quase totalmente qualquer possibilidade de revolta, bem como gerava enorme lucro para o dono da mina.

Quase todo o trabalho executado pelos escravos era braçal, porém haviam sim, em número bastante reduzido, escravos instruídos. Contudo, esses escravos eram instruídos para executar tarefas consideradas aborrecedoras aos donos. Um exemplo seria realizar cálculos ou escrever coisas rotineiras. Nos tempos antigos dava-se maior valor ao ócio pensante e ao engajamento com as atividades políticas e religiosas da pólis. Portanto, a instrução dos escravos não era a mesma de um cidadão. Embora o escravo pudesse ter sido ensinado a ler, escrever e calcular ele jamais teria condições de acompanhar um raciocínio filosófico ou político extenso ou de executar um discurso capaz de convencer uma platéia, exceto se tivesse recebido a educação de um cidadão antes de ser escravo (ex.: Aristóteles – sim, ele foi escravo durante a dominação Macedônica).

Sem dúvida que existia diferença de preço entre os escravos. Sexo, idade, saúde, porte físico, origem e instrução eram levados em conta no momento de dar preço ao escravo a ser vendido. A título de informação geral, irei citar aqui os registros de preço pedido por alguns escravos que foram negociados em Atenas:

  • Escravo doméstico (oiketes – escravo de confiança responsável pelos cuidados da casa): 2 minas
  • Escravo doméstico (oscilação de preço considerando sexo, idade, saúde e especialização): 50 a 1.000 drachmas
  • Capataz de mina de prata: 1 talento
  • Escravo especializado (fábrica de espadas): entre 5 e 6 minas cada
  • Escravo especializado (fábrica de móveis): 3 e 4 minas cada
  • Escravo para agricultura: entre 125 e 150 drachmas
  • Escravo para mineração: entre 125 e 185 drachmas
  • Escravo especializado (perfumista): 40 minas
  • Lote com 25 escravos (sexo e idade variados) vendidos em leilão: 174 drachmas (valor obtido pela oferta pública dos participantes)

O tratamento recebido pelos escravos era próximo ao que damos hoje a um cão ou outro animal de estimação (na mesma medida em que uns tratam melhor e outros pior). O escravo não era visto como ser, mas como coisa. Entretanto, punir fisicamente em excesso e sem motivo um escravo não era punido criminalmente (afinal o escravo é seu e você faz o que você quiser com ele) porém era algo socialmente mal visto. A ideia de escravidão e sadismo não andavam juntas e o exercício da violência desmotivada não era algo considerado adequado e igualmente não era normal.

A população escrava era expressiva e tinha grande importância na economia e na guerra. Fábricas, minas, plantações e toda sorte de empreendimento tinha uso de escravos; no âmbito doméstico seu uso era igualmente comum. Na guerra eram empregados em funções como remadores e auxiliares (encarregados da manutenção de armas e carregamento de provisões – o armamento completo de um hoplita poderia pesar mais de 30 kg e envolvia várias armas de reserva (lanças em especial)).

Escravos, embora fossem escravos, possuíam alguma liberdade para possuir patrimônio e negociar. Eram impedidos de exercer atividades que pudessem facilitar revoltas. Em Creta, por exemplo, todo escravo era impedido de frequentar o ginásio para se exercitar ou de possuir armas; fora isso tinham uma vida sem maiores restrições, podendo angariar posses sem maiores problemas.

spartacus

Na série Spartacus, tanto o protagonista como seu amigo Varro são escravos e, por meio de suas vitórias, conseguem angariar posses para pagar suas dívidas.

Era igualmente possível que um escravo fosse dono de outros escravos caso conseguisse prosperar, bem como negociar sua liberdade com seu dono mediante o pagamento de preço. Em Roma (a qual era, também, uma cidade-estado), os gladiadores eram formados, em sua maior parte, por escravos e há vários registros de vários deles que conseguiram fama, riqueza e liberdade.

Embora os escravos pudesse receber bom tratamento e igualmente pudesse negociar e prosperar, essa não era uma realidade animadora. Primeiro porque a liberdade lhe era retirada, segundo porque a maior parte dos escravos era empregada nas mais insalubres tarefas, daí tornando quase impossível viver tempo suficiente para superar a condição de escravidão e terceiro porque embora pudesse chegar a prosperar jamais seria visto como pessoa e sim como um bem do qual seu dono poderia bem dispor a qualquer tempo (no seriado Spartacus essa possibilidade fica bem evidente quando Gannicus é posto em uma luta no mercado e depois quando sofre o risco de ser vendido para outra casa de gladiadores).

Um outro aspecto desanimador sobre a condição de escravo era o tratamento que recebiam quando figuravam como testemunhas nos processos judiciais: eram os únicos que o testemunho tinham de ser colhidos mediante tortura. Tal procedimento era justificado sob a alegação de que o escravo estaria propenso a mentir em decorrência de sua condição.

Spartacus: Gods of the Arena; Episode 1

Na série Spartacus, Gannicus é um habilidoso gladiador, contudo isso não lhe punha em situação superior à de qualquer outro escravo.

Daí haviam revoltas entre os escravos que desejavam ter sua liberdade devolvida para viver suas vidas como bem entendessem. Cedo ou tarde o sentimento de resignação se esgotava entre a maior parte dos escravos e uma revolta se iniciava. Em Esparta o assassinato periódico de escravos era algo comum justamente para instalar o sentimento de terror entre a população escrava, bem como era um rito de passagem onde o jovem espartano se fazia homem ao matar um escravo usando apenas as mãos.

Embora o sentimento de terror pudesse ser instaurado entre os escravos mesmo em Esparta houveram revoltas. Inclusive em uma delas houve uma batalha tão sangrenta que os escravos foram libertados e mandados embora de Esparta por terem mostrado seu valor como homens e guerreiros, cabendo inclusive dizer que nessa batalha ficou bem clara a verdade nessa antiga citação “Liberdade é a posse certa de todos aqueles que coragem de defendê-la”.