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Hoplitas – Defensores da Pólis – Revolução social

A guerra, desde os mais antigos tempos, se fez presente na vida de inúmeras civilizações ao ponto de ser incomum não encontrar algum registro sobre guerreiros e conflitos nas diversas civilizações estudadas. Os Helenos não fugiram à regra e tinham nos hoplitas a sua principal força mantenedora da paz.

Inicialmente a infantaria não recebia grande valor, ao passo que a cavalaria e carruagens de guerra eram grandemente valorizadas. Lutar à cavalo era algo possível apenas aos nobres de nascimento (porque você tinha de garantir a alimentação de um cavalo de guerra e somente nobres dispunham de tantos recursos), ao passo que a atuação junto à infantaria era algo visto como inferior.

A organização e qualidade das tropas de infantaria igualmente contava para seu baixo status. Como as tropas eram milicianas não é difícil imaginar que a organização e equipamento não eram dos melhores (sem coesão ou padronização de equipamento, essas “tropas” não passavam de um amontoado de homens com instrumentos diversos que poderiam ser utilizados como armas). Durante as invasões Dórias essa deficiência ficou mais evidente: a organização das tropas, experiência em campo e qualidade do arsenal Dório (utilizavam armas de ferro, ao passo que os nativos utilizavam bronze) garantiu vitória generalizada.

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As carruagens, quase sempre, eram compostas por um lanceiro e um condutor, contudo a presença de um arqueiro igualmente era possível (embora o arqueiro tivesse maior presença nas carruagens egípcias).

Após a invasão Dória a cavalaria deixa de ser a força de destaque e passa a ser considerada auxiliar ante sua derrubada pelas forças invasoras. O soldado com lança e escudo ganha notoriedade e passa a figurar como peça-chave para a guerra moderna.

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A superioridade bélica dos Dórios, unido à dificuldade de manobra da cavalaria no terreno nativo fizeram mostrar a eficiência da infantaria com lança (organizada em linha – formação conhecida como falange) sobre a forma antiga de se guerrear.

Os efeitos decorrentes da vitória dos invasores e da súbita importância da infantaria foi sentido no próprio tecido social. Tendo a cavalaria menor importância militar, juntamente com isso, a própria classe dos nobres perdeu força política. O estamento social mediano recebeu maior importância no cenário político visto seu novo poder de barganha como peça militar essencial para a vitória e manutenção da paz.

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Após a invasão Dória o soldado de infantaria, o Hoplita, ganha nova importância dentro da formação militar.

Convém aqui explicar que o butim era dividido conforme os méritos dos soldados em campo de batalha; além disso, vale ressaltar que as forças de combate não eram profissionais, mas milicianas. Portanto cada soldado era responsável pela aquisição e manutenção do próprio equipamento (o qual ainda não era padronizado). Logo, não é errado concluir que a classe mais rica tinha dupla vantagem sobre a classe mais pobre: primeiro porque tinha acesso às melhores armas e daí tinham melhor desempenho em combate e,  por isso, tinham maior participação no butim.

No momento em que a forma de guerrear se modifica e o soldado com lança passa a se destacar em importância, então há uma mudança na distribuição dos butins para a maior parte dos guerreiros. O novo poder econômico conquistado na vida militar fez pesar a balança política na vida civil. Esse novo vigor na vida civil tinha direta relação com a maior participação no butim após as batalhas (dinheiro, joalheira, armamento, comida e escravos em geral).

Esse vigor social não ocorreu apenas porque os homens mais pobres se tornaram mais ricos de uma hora para outra, mas porque com essas riquezas poderiam obter alimentos que não apenas os que cultivavam nas terras dos cidadãos. Essa mudança na forma de obter comida faz ocorrer um vácuo de poder e faz pesar a balança de força política. O poder de barganha quase absoluto antigamente possuído pelos antigos cidadãos passa a se enfraquecer, vez que eles dependem da força dos não cidadãos que, em outros tempos, cultivavam suas terras e, por esse direito, lhes deviam fidelidade e uma parte do que fosse produzido (sim, era um modelo feudal de produção – esse corpo de “cidadãos de segunda-linha” era, em Roma, conhecido como clientela (formado por clientes,  portanto), contudo a designação como vassalagem (formado por vassalos, portanto) não é incorreta).

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No início possuir terras era o único meio de garantir alimentação, portanto, quem tinha terras agricultáveis tinha poder de barganha sem precedentes sobre os demais.

Três fatores deram início à uma revolução social e política (boa parte dessas revoluções não foi necessariamente belicosa, vez que a guerra civil costuma ocorrer apenas em último caso – quando a via política já não mostra capacidade alguma de resolver os problemas de governança): redução da importância militar da cavalaria ante a infantaria com lança; maior participação dos vassalos nos butins e, portanto, enriquecimento de maior parcela da população; capacidade de obter alimentos que não os cultivados nas terras dos cidadãos (o que liberou boa parte dos homens do vínculo de clientela/vassalagem).

O direito de cidadania era passado de maneira hereditária. O laço de sangue era, até então, o vínculo único para a recepção de tal direito. Portanto, não é difícil presumir que a ascensão social de um vassalo era algo raro (não era impossível vez que um vassalo poderia ser adotado e, assim, ser recepcionado no seio familiar de um cidadão sem que houvesse laço de sangue real).

Não demorou muito tempo para que houvesse uma revolução política em que as camadas de homens (não era costume, por caráter prático, que mulheres formassem o corpo militar da Pólis – mesmo em Esparta as mulheres não eram a primeira opção para o engajamento em combate) que compunham o corpo de infantaria passassem a ter maior expressão política devido seu novo poder de barganha.

Em princípio tal mudança pode parecer pequena, contudo ela representa um grande passo. O corpo social ganhou em fluidez e renovação no momento em que a terra deixou de ser a única forma de obter riqueza e alimentos. Tal mudança possibilitou que homens antes desprovidos de terras agora tivessem meios de não mais depender do vínculo de vassalagem para ter garantida alimentação e riqueza. Junto disso, uma outra classe social ganha força: os comerciantes.

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Graças aos comerciantes e aos alimentos que traziam de outros lugares os antigos vassalos puderam melhor barganhar com os antigos cidadãos e detentores das terras agricultáveis.

Os comerciantes com esse novo aporte de riquezas passam a prosperar, pois são eles que oferecem meios para que os antigos vassalos obtenham alimentos em da troca das riquezas obtidas pelo butim. A ordem social e de produção até então estabelecida sofreu uma mudança suficiente para pesar a balança do poder político e acirrar as tensões sociais existentes.

Vassalos eram livres contudo não tinham os mesmos direitos de um cidadão e comerciantes eram em sua maioria estrangeiros, logo eram tolerados porém também não possuíam direitos – ambos eram juridicamente dependentes de um cidadão. Com o aumento dessa parcela da sociedade marginalizada, porém fundamental para a existência da pólis, houve a necessidade de modificar as leis de maneira suficiente para garantir a segurança econômica e militar da pólis.

A pressão exercida pelos antigos vassalos foi suficiente para que leis fossem criadas para os abarcar como cidadãos. O direito de cidadania deixou de ser puramente hereditário e passou a ser censitário. Embora o direito de cidadania tivesse sofrido marcante modificação, ele não ocorreu de maneira puramente monetária: uma posse mínima de terras era exigida, bem como que sua filiação tivesse, inicialmente, pai e mãe nativos da cidade em questão (tal movimentação social não ocorreu apenas em Atenas, revoluções assim não são próprias de apenas um lugar e, menos ainda, de apenas um civilização), além, é claro, de uma renda anual mínima (não medida apenas em bens móveis, mas também em produção de alimentos).

Tais termos tinham um motivo de ser: cidadãos tinham várias obrigações para com a administração da cidade, portanto, não poderiam ser financeiramente vulneráveis e precisavam ter laços duradouros que estimulassem sua lealdade. A obtenção de terras (movimentada pela necessidade dos bens móveis pelos antigos cidadãos ou imposta mediante lei) fazia com que os novos cidadãos permanecessem como força militar presente e interessada em defender a cidade em que viviam (caso o único vínculo com a cidade fosse o fato de lá ter nascido, então o mais provável é que se lançassem à vida de soldados mercenários ou promovessem luta armada contra a força governante (dado seu maior número e poderio militar comprovado)), bem como engajados na produção de alimentos.

Do período dessa revolução social em diante pólis encarou também uma modernização na maneira de administrar os negócios e as relações citadinas. De uma posição de servilismo e obscuridade o hoplita passou a ser o novo protagonista não apenas da defesa, mas da historia da pólis. Seu surgimento foi fator decisivo para a revolução necessária para o estabelecimento da pólis moderna.