Alegoria sobre a movimentação moral das ações

By | 20 de fevereiro de 2015

A ética das ações é o ponto de maior atenção no sistema Phantasia RPG. O foco nas aventuras reside, sem dúvida alguma, na realização de feitos heroicos, contudo sem deixar de lado o fator dramático envolvido nos resultados decorrentes das ações tomadas pelas personagens durante a resolução de dilemas apresentados pelo narrador no decurso da historia.

biga

A alegoria do condutor deixa clara a importância de fortalecer nossas virtudes como forma de manter nossas vidas em um caminho bom e sadio.

O método de exposição sobre como subsistema para anotação da evolução do fortalecimento ou corrupção das virtudes das personagens é inspirado na alegoria proposta em “A república”. Nessa obra clássica a alegoria é representada da seguinte forma: existe o condutor (personagem) que guia sua biga, a qual é puxada por dois cavalos, sendo um deles branco e disciplinado (virtude) e o outro preto e indisciplinado (desejo) e, a todo tempo, o cavalo negro tenta puxar a carruagem para fora do caminho ideal (busca da vida sã/vida feliz/eudaimonia), ao passo que o cavalo branco busca trazer a biga de volta.

Durante toda a viagem os dois cavalos disputam força entre si e o condutor precisa se fazer presente para que a biga não tombe ante a confusão gerada pelas bruscas mudanças de rota promovidas pelo desentendimento entre os cavalos. O condutor, na maior parte das vezes, exerce poder final sobre qual o curso a ser tomado.

Em alguns momentos o condutor castiga o cavalo negro para que seu ímpeto seja reduzido e, assim, o cavalo branco consiga forçar o retorno ao caminho; o condutor igualmente pode mandar que o cavalo branco ceda ao desvio pretendido pelo cavalo negro, contudo o momento mais dramático é quando o desvio pretendido pelo cavalo negro não é desejado pelo condutor e ele, junto com o cavalo branco, travam forte disputa de forças.

É nesse último momento que se encontram os dilemas e a luta interna para resistir ao desejo capaz de corromper as virtudes da personagem. É aqui o momento em que, apesar de todo o esforço do condutor, sua força unida à do cavalo branco não se mostra suficiente para conter o ímpeto do cavalo negro e a carruagem acaba por tomar caminho diverso do ideal.

biga

O condutor nem sempre consegue conter o ímpeto do cavalo negro devido à fraqueza apresentada pelo cavalo branco. Fortalecer nossas virtudes é fundamental para que tenhamos uma vida sadia e feliz.

 

De mesma forma é adequado dizer que estando o cavalo branco forte e sadio, na maior parte das vezes, o condutor não precisará realizar grande esforço para manter a carruagem no caminho ideal, visto ser o cavalo branco suficiente para manter a ordem na condução da carruagem.

Entretanto, no decurso do caminho as situações de dilema tornam o cavalo negro mais forte ou tornam o cavalo branco mais fraco? Ou seria até mesmo de se questionar se não há a possibilidade de que ambas as situações ocorram ao mesmo tempo. Seria isso possível? Evidente que sim.

A força do cavalo negro procede diretamente de fatores externos que lhe façam aumentar seu ímpeto e indiretamente da fraqueza do cavalo branco. Manter o cavalo branco forte e sadio, portanto, é vital para que a carruagem não se perca de seu caminho ideal – vez que os vícios que o mundo oferece (e que fortalecem o ímpeto do cavalo negro) são muitos. Com efeito que há a influência de fatores externos que fortaleçam o cavalo branco, contudo são em menor número e, por isso, devem ser valorizados quando encontrados.

Convém agora questionar o seguinte: o quê é mais complicado de resolver: a exposição aos fatores que fortalecem o ímpeto do cavalo negro ou fortalecer o cavalo branco?

Em meu entendimento, a segunda opção é mais complicada, pois podemos nos por fora da exposição de ambientes ou companhias viciosas mais rapidamente do que fortalecermos nossas virtudes. Desse modo, para que possamos ter a chance de voltar a perfilhar o caminho ideal, primeiro é preciso mudar hábitos viciosos para, só depois, conseguir mais facilmente fortalecer nossas virtudes.

É possível e adequado fazer uma correlação com uma passagem das aventuras vividas por Ulisses.

Ulisses dá o exemplo de quão difícil é resistir às tentações que se apresentam em nosso caminho; inicialmente como algo bom, mas que depois se mostra como algo capaz de trazer destino infeliz não só para nós mesmos, mas para todos aqueles que nos acompanham. Nessa situação Ulisses teve de ser amarrado e seus marinheiros ter os ouvidos tapados para não cederem aos encantos das sereias, pois tinha a missão de dizer quando já era seguro parar de remar por já terem passado das águas habitadas por essas criaturas sedutoras e fatais.

canto das sereias

A passagem de Ulisses pelo mar das sereias é uma demonstração clara de como pode ser complicado resistir às tentações e dilemas que se põem em nosso caminho.

 

A alegoria de Ulisses deixa bem claro o seguinte: as tentações não se apresentam como algo ruim e sim como algo bom e encantador; não fosse assim, ninguém cederia à elas justamente por se apresentarem como algo visivelmente nocivo e ruim. Os vícios que corroem nossas virtudes, portanto, em princípio, se apresentam como coisas agradáveis e inofensivas e capazes de persuadir aos que tenham olho desatentos, seja por falha de julgamento decorrente de ingenuidade ou inexperiência, para os perigos que podem trazer.

Essa alegoria rende ainda muito assunto, contudo acredito que o conteúdo exposto até agora seja mais que suficiente para fomentar muitos questionamentos e discussões, tanto dentro como fora da mesa de jogo. Os dilemas são infindáveis e, enquanto a Humanidade exista, sempre haverão dilemas e questionamentos de ordem moral a serem respondidos.

E você, qual sua opinião sobre o assunto? Acha que pode render algo bom nas campanhas? Deixe sua opinião nos comentários e vamos todos trocar ideias e construir, assim, um conhecimento melhor sobre o tema.

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