Ginástica na Hélade: mais que um exercício físico, um dever cívico!

By | 12 de fevereiro de 2018

Desde os mais remotos tempos exercícios físicos eram praticados. Correr; pular; remar; escalar; arremessar e lutar eram atividades corriqueiras e necessárias à manutenção da vida nos tempos antigos. Contudo, o trabalho sistemático de uma série de exercícios previamente estudados, para a manutenção da saúde e beleza corporal, só foram introduzidos em período posterior.

A Hélade foi responsável pelo surgimento da ginástica como uma ciência e por sua propagação pelo mundo conhecido. Mais adiante o Império Romano igualmente ajudou a propagar a cultura de cultivar um corpo e mente sadios por meio da prática ginástica regular.

No seio da sociedade Helênica era comum o culto à beleza e à saúde física. A harmonia entre corpo e mente era o ideal a ser alcançado; dessa forma, a prática da ginástica era encarado como parte da educação de um cidadão completo. O deus Apolo era considerado um exemplo à prática ginástica pois seus atributos representavam os objetivos dessa ciência: juventude; saúde; beleza e harmonia.

Apolo

O deus Apolo era um ideal a seguido por todos os homens que se dedicavam à prática ginástica. Beleza, juventude, saúde e harmonia eram alguns de seus atributos.

Em princípio o comparecimento para os exercícios ginásticos era um dever cívico para que o cidadão pudesse seguir mantendo seus direitos de forma plena. Então, a depender das leis de cada pólis, o cidadão deveria comparecer aos exercícios, que poderiam ser com maior ou menor frequência e/ou com maior ou menor intensidade a depender das leis que instituíam esse dever, e cumprir com sua obrigação cívica e exercitar-se junto com os demais.

Essa obrigatoriedade, no período mais remoto da historia Helênica, se explica devido à demanda de homens fortes e aptos a lutar sempre que fossem chamados, vez que os conflitos armados eram constantes e os exércitos não eram regulares e sim milicianos. Com efeito a prática ginástica obrigatória não garantia vitória nas batalhas, porém sem que os cidadãos tivessem, em média, um condicionamento físico que lhes possibilitassem se manter alerta; sadios e preparados para eventual necessidade em campo de batalha ou em esforços físicos urgentes (resgatar pessoas de escombros por exemplo), as chances de sucesso ficavam bastante reduzidas.

Os ginásios eram tão importantes que o geógrafo Pausânias afirmou que “um lugar sem um ginásio não pode ser considerado uma cidade (pólis)”. O ginásio era uma das três principais construções para que um lugar pudesse ser considerado uma cidade de fato; os outros dois eram a praça comercial (ágora – local ondem eram realizadas negociações variadas) e a câmara popular (bouleutêrion – local onde se votavam as leis; resolviam conflitos de interesses e decidiam assuntos relativos à administração da pólis em geral).

Outro ponto interessante sobre os ginásios é que eram locais públicos onde não se tratavam apenas de exercícios físicos, mas também de exercícios mentais. Sócrates frequentemente os frequentava e lá debatia ideias com os interessados

O culto ao corpo, à saúde e à beleza era uma realidade muito presente na vida dos Helenos. Em geral o entendimento era de que a beleza física acompanhava a beleza moral e intelectual. Logo, por esse pensamento, uma pessoa bela deveria ser uma pessoa boa. Essa visão nos causa estranheza sem dúvida; porém se analisarmos o fato de ser essa uma sociedade onde a ideia de pecado era inexistente e as únicas reprimendas eram devido o cometimento da hybris (excesso/descomedimento) então ela se amolda mais facilmente.

discobolo

A escultura do discóbolo é um verdadeiro símbolo para os atletas, sejam do passado ou do presente. É uma peça de arte que nos inspira a buscar a competição e um corpo sadios.

Outro motivo para a prática ginástica era a possibilidade de treinar para competições atléticas – em especial as Olímpicas. Campeões de jogos eram considerados e tratados como herois locais por seus feitos. Além da fama e renome que o atleta recebia havia junto disso uma série de benefícios mais tangíveis; sendo eles: um farto prêmio em ânforas do melhor azeite ou vinho produzidos; moedas de prata; bois ou outro tipo de gado; isenção de impostos e custeio de despesas em caráter vitalício; poemas sobre seus feitos como atleta; construção de uma estátua para marcar sua vitória e até mesmo serem exaltados como uma divindade menor.

Uma inscrição incompleta revela que um campeão de corrida dos jogos Panatenaicos (homem, adulto, distância de um estádio) recebia entre 80 a 120 ânforas de azeite de oliva de primeira qualidade. Qual o valor de um prêmio desse em valores atuais??? Em litros essa premiação estaria entre 3.040/3.120 até 4.560/4.680 litros; em valor corrente seria entre R$ 106.400,00 e R$ 163.800,00 (o critério utilizado para a chegada desse valor foi por meio de uma pesquisa rápida do preço por litro de uma marca de azeite considerada o melhor da Europa e que foi apresentado a R$ 35,00).

A importância de se ter um campeão olímpico entre seus cidadãos era tamanha que há o registro de uma comemoração em Akragas em que o bi-campeão consecutivo Exainetos foi recebido por 300 bigas, todas puxadas por cavalos inteiramente brancos, por uma brecha feita em uma parte da muralha para que sua passagem fosse feita. Essa simbólica brecha nas defesas teve a seguinte explicação: qual a nossa necessidade por muralhas quando temos entre os nossos vários homens como Exainetos? Imaginem, por meio dessa comemoração, qual era a relevância de um campeão olímpico.

Contudo, com o passar dos anos, a importância da ginástica foi se perdendo. Conforme as forças de combate deixavam de ser milicianas e passavam a ser regulares, a exigência de comparecimento aos exercícios foi sendo reduzida até o ponto em que passou a ser facultativa.

Por fim, o comentário de Alexandre, o Grande, no momento em que liberta Mileto (ao ver uma infinidade de estátuas de campeões olímpicos) “Onde estavam os homens com tais corpos quando os bárbaros puseram esta cidade sob cerco?” deixava claro que, embora tais homens fossem formidáveis, eles não eram úteis em período de guerra e tudo que deles se poderia esperar eram glórias passadas.

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